A BATERIA DE «SANTA CATALINA» EM GIJÓN
Por Miguel Machado • 13 Mai , 2016 • Categoria: 14.TURISMO MILITAR, EM DESTAQUE PrintEsta bateria tem uma característica que sendo vulgar nas instalações da artilharia de costa em todo o mundo, é um dos seus pontos fortes…a paisagem. Sendo a infra-estrutura visitável relativamente simples, mesmo estando desprovida de armamento, toda a sua zona de implantação está muito bem conservada e é bastante concorrida. A colocação de painéis com desenhos do projecto original, compensam a falta das armas. Estamos perante um exemplo de como é possível fazer muito a partir de pouco!
Impossível não pensar de imediato nas potencialidades desaproveitadas em Portugal, nas nossas antigas baterias, parte das quais ao abandono.
Olhando para os painéis que ilustram a história da bateria, cedo se percebe que a inexistência de armas não foi neste caso – como infelizmente aconteceu em muito outros lugares de Espanha, de Portugal e em muitos outros países – uma consequência do desinteresse pela sua conservação no pós-2.ª guerra mundial, ou depois do fim da “guerra-fria”, mas porque, as armas…nunca lá estiveram!
História…com pouca história
«…Las defensas militares de Gijón son muy modestas… …Al considerarse inviable una invasión de España desde la costa asturiana, la defensa de Gijón quedó reducida a un problema exclusivamente de ámbito local cuyo objetivo era rechazar pequeños ataques…», palavras do autor de ‘Las defensas de la bahía de Gijón’, Artemio Mortera Pérez, ao jornal local “El Comercio”. Ainda assim a cidade foi atacada em 1635 pelos franceses, em 1810 pelo exército hispano-britânico, e em 1937 (guerra civil) pelos nacionalistas, referindo o autor, também presidente da Asociación para la Recuperación de la Arquitectura Militar Asturiana (ARAMA), que «La ciudad estaba indefensa al carecer de artillería adecuada. Aunque la colocación de un cañón Vickers en La Providencia obligó a la flota nacional a declarar el bloqueo del puerto» (Nota: La Providencia fica no extremo Este da Praia de San Lorenzo)
Na realidade a construção da nova “Bateria Alta” demorou tanto – 1904 /1926 – que o armamento previsto se tornou obsoleto, não foi instalado, e depois, mais tarde – exceptuando um curto período durante a guerra civil em que ali foram instaladas peças de artilharia de campanha – nunca foi considerado necessário dotar a fortificação de material.
A história desta bateria, e de outra ali perto, é simples de contar. De acordo com informação recolhida no local, nos finais do Sec. XIX as instalações da «Batería Baja de Santa Catalina», na mesma península, mas na vertente virada para o Porto, uns metros mais abaixo, mais perto do nível das águas da baía, eram inadequadas para a defesa das instalações portuárias de Gijón. Careciam de campos de tiro suficientes para aproveitar as características – maior potencia e alcance – das então modernas peças de artilharia. Decidiu-se então mudar a localização da bateria, colocando-a no cimo do morro de Santa Catalina, para que as armas tivessem um sector de tiro de 180 graus sobre a baía de Gijón.
O projecto definitivo da bateria, formulado em 1902, foi aprovado pelas reais ordens de 25 de Outubro de 1904, iniciando-se as obras no final desse ano e prolongaram-se como acima referimos.
Parque público
Em 1982 iniciaram-se negociações entre a autarquia e o ministério da defesa para cedência dos terrenos e das baterias (onde o Exército ainda mantinha paióis activos), coisa nada fácil que demorou para determinar o valor do pagamento que a cidade devia fazer ao Exército – e fez – e o plano de recuperação desta área de cerca de 60.000 metros quadrados, a qual incluía as duas baterias.
Hoje ambas estão incluídas em zonas de lazer, abertas ao público sem qualquer pagamento, integram os roteiros turísticos da cidade, tendo o local sido “potenciado” para o público em geral, pela instalação, mesmo sobre o antigo “posto de observação” da bateria, de uma obra de arte que tem relevância na cidade: o Elogio do Horizonte de Eduardo Chillida (1924-2002). Com 10 metros de altura, construído em betão armado, foi instalado em 1990 e já é um ex-libris desta cidade das Astúrias, ponto de “foto obrigatória”. Ainda ligado a este parque, junto às ruínas da “Bateria Baixa”, instalações desportivas servem a população local.
A «Batería Alta de Santa Catalina»
O espaço foi bem aproveitado, tanto mais que não só não teve grande história como nem armas ali estiveram a título permanente! Ainda assim, recorrendo aos projectos das obras e ao planeamento do armamento, o visitante pode ver não só uma infra-estrutura cuidada, como os desenhos e explicações relativos ao que esteve planeado. Os amplos espaços verdes e a vista magnífica fazem o resto e atraem muita população local e turistas.
E em Portugal?
Quando se vê o que aqui foi feito, partindo de quase nada, fica-nos um amargo na boca quando pensamos na Bateria do Otão, mesmo a da Parede – que teima em não ser transformada em Museu – e na da Fonte da Telha, só para falar nestas que estão “menos más”.
Recentemente um grupo de entusiastas ingleses teve oportunidade de visitar a antiga 6.ª Bateria do Regimento de Artilharia de Costa, na Fonte da Telha, conhecida como “Bateria da Raposa”, equipada com material 23,4 cm. Estavam deslumbrados pelo estado de conservação das peças, segundo eles, especialistas que são e visitantes de tudo o que há deste tipo um pouco por todo o mundo…são mesmo as únicas deste tipo no Mundo que se encontram “em estado de funcionar”. Em suma, uma raridade, escondida, definida nestes termos exactos pelo responsável dessa associação inglesa, o “Fortress Study Group”:
“…Bta Raposa was of course the apex of the tour for those whose main interest is concrete and guns – it is unique in the world. We certainly have nothing like it, and now Alcabideche has gone I do hope Raposa can be maintained and preserved and Col Pires’s plans for an Association come into being…”
A sabedoria popular diz que “Deus dá nozes a quem não tem dentes” e na realidade, nós em Portugal que temos boas instalações ligadas à artilharia de costa, não há meio de as conseguirmos adaptar para que todos, portugueses e estrangeiros que nos visitam, possam desfrutar dos magníficos espaço, e também da sua história, da história de Portugal.
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